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O que aconteceu - Piracaia na Leitura

26/03/2020

O que aconteceu - Piracaia na Leitura
Amanda Leal de Oliveira e Marco Maida, fundadores do PiraCaia na Leitura e vencedores do Prêmio IPL em 2018

Pouco mais de um ano de ter vencido o Prêmio IPL Retratos da Leitura, o projeto PiraCaia na Leitura continua impactando a cidade em que atua. A visibilidade da iniciativa, por meio do Prêmio, mobilizou gestores locais a investirem na área da leitura também, criando mais uma biblioteca na cidade, destinando recursos às bibliotecas escolares e em ações pró-leitura.

Amanda Leal de Oliveira, organizadora do Projeto, conta em entrevista a importância da leitura em sua própria vida e como sua paixão pelos livros a levou a criar e manter a iniciativa homenageada no Prêmio IPL de 2018. Veja o que ela disse.

O que é leitura para você?

A leitura é um encontro, um confronto, uma negociação entre a leitura de mundo dos leitores e a dos sentidos propostos pelo autor do texto. Ler é uma experiência dialógica. 

Por que se envolveu com um projeto de incentivo à leitura? Que lugar o livro ocupa em sua vida?

Já adulta me dei conta do quanto tive acesso a livros e a cultura da escrita, desde cedo, em minha casa. Meus pais sempre tiveram livros, minha casa era pequena mas tinha um corredor forrado de prateleiras e livros de literatura. Sempre que podiam, meus pais compravam livros para mim e meus irmãos. 

Meus pais sempre trabalharam fora, mas nos deixavam diariamente bilhetes amorosos, explicando o que meus irmãos e eu deveríamos fazer no dia. Na escola, com os amigos, as cartinhas também eram infinitas, repletas de confissões, poesia, declarações de amor... Eu também tinha um diário e, por meio da escrita, procurava descrever e entender meus sentimentos e o mundo que me rodeava... 

Fui me dando conta, mais tarde, do quanto pude sentir o afeto das pessoas por meio dos textos, parecia que escutava suas vozes, sentia suas presenças e mais, o quanto eu me organizava cotidiana e emocionalmente com os textos que lia ou que eu criava...  Ou seja, quando eu comecei a ler livros, acho que pude, desde o início, ler aqueles textos como quem ouve voz de alguém e, mesmo que fosse alguém que eu não conhecia, o texto me soava como um diálogo, uma tentativa de conversar comigo que eu ia gostando, me abrindo, ou não... 

Até entrar na faculdade, eu não tinha muita noção de que essa era uma experiência privilegiada com relação à leitura, pois a maioria das pessoas não tem tanto acesso à escrita e, principalmente, não dessa forma cotidiana e afetiva. 

Realizei um estágio na unidade feminina do que antes se chamava FEBEM e, com as meninas, concretizei essa experiência: para me aproximar delas, levei livros, pois achei que estava levando algo precioso, divertido, amoroso e a reação foi contrária: uma enorme rejeição e até aversão! Iniciamos as conversas e pude ir percebendo como, para elas, a leitura e a escrita eram algo muito chato, obrigatório, uma experiência que não dialogava em nada com seus interesses, suas vivências etc. 

De lá para cá, passei a me dedicar a tentar contribuir para que as pessoas tenham experiências mais significativas com os livros e a leitura, encontrando e aperfeiçoando “sua voz” nos textos. 

Quando me mudei para Piracaia, cidade com 27.000 habitantes, a única  biblioteca pública da cidade estava sendo fechada, pois “não havia demanda”. 

Minha trajetória na área de formação de leitores, assim como a de meu marido na área de defesa dos direitos da criança e do adolescente, diziam que, ao contrário, leitura não é uma questão de demanda e sim de direito, ou seja, precisamos disponibilizar livros, ambientes, educadores, mediadores para que as pessoas possam ir se formando e se descobrindo leitoras. Daí criamos o Projeto Piracaia na Leitura, inaugurando a primeira minibiblioteca livre em ponto de ônibus da cidade, em 2014.

 

Qual foi o episódio mais emocionante vivenciado por você durante sua atuação no projeto? Comente brevemente.

É difícil escolher um episódio mais emocionante, nesses 6 anos de Projeto. São muitos! Lembro de um dia em que eu estava colocando livros na minibiblioteca do bairro Pouso Alegre e havia uma moça sozinha, sentada no ponto de ônibus, falando no celular. Ela pediu para desligar a ligação e se aproximou de mim, dizendo que precisava agradecer imensamente ao Projeto pelos livros que havia lido naquela minibiblioteca, pois eles a tinham livrado da depressão. Ela contou que morava com sua avó, que havia falecido e que, desde então, quase não saía de casa. Até que um dia, no caminho da padaria, viu a bibliotequinha, os livros e escolheu um para ler. Contou que o livro foi transformador, que “caiu como uma luva” para ela e a fez sentir vontade de ler mais e mais e que, desde então, toda semana ela fazia uma nova leitura e, principalmente, que estava encontrando novos sentidos para retomar sua vida.

Ouvir isso de alguém é muito emocionante.

Me lembro também do Lucas, um adolescente que se mudou de São Paulo para Piracaia contra sua vontade, pois não queria deixar os amigos e a vida na capital.  A mãe estava super preocupada porque Lucas estava infeliz, revoltado, descontente com a escola etc, até que ele descobriu a biblioteca no ponto de ônibus! Ela nos conta que, no início, ficou preocupada, pois o Lucas passou a não voltar para casa logo depois da escola. Ela saiu para procurá-lo e o encontrou no ponto de ônibus lendo, sob a luz do poste, pois ele não sabia que podia levar os livros para ler em casa.  Hoje o Lucas é voluntário do Piracaia na Leitura e um grande incentivador do Projeto. 

Destaco também Dona Maria Ignez, uma idosa de 95 anos, moradora do asilo de Piracaia que revelou-se uma poeta no primeiro Festival Literário do Piracaia na Leitura, que realizamos em 2016. Ela enviou seu texto escrito à mão, com uma grafia super caprichada, logo no dia seguinte à abertura do Festival. No dia da celebração do Festival, ela contou publicamente de sua alegria de ter seu texto compartilhado com outros apreciadores de poesia que ela não sabia que existiam na cidade. 

São muitos os encontros e as histórias emocionantes... Muitas alegrias. 

Quando você olha pra trás, relembrando como era no início de sua participação, o que você vê? Quais foram seus principais aprendizados de vida desde então que possuem relação direta com o projeto?

O Projeto Piracaia na Leitura teve início comigo, meu marido e nossos filhos, com livros nossos e de meus pais, mas hoje ele é mantido por uma equipe querida e aguerrida de mais de 20 pessoas. Muitas ideias novas, muitos desdobramentos. Somaram-se a nós parceiros importantes na cidade, como o Movimento Slow Food Piracaia e Associação não-Governamental Piracaia Orgânica. Mantemos o diálogo constante com o poder público, provocando a reflexão, convidando-os à parceria. Aprendi que tendo clareza do foco – democratização do livro, da leitura e da escrita, valorização das pessoas e da cultura local  - os caminhos para se chegar lá são muitos. As ideias, o papel de cada um, as singularidades, as negociações, são super importantes. O trabalho em rede é muito bonito, transformador e potente. 

Que tipo de impactos você já consegue sentir por meio de sua atuação para transformar o Brasil num país leitor?

Como disse inicialmente, a cidade de Piracaia tinha uma única biblioteca pública e que estava prestes a fechar. Inauguramos a primeira minibiblioteca livre em 2014 e hoje são 12, em diferentes bairros, mais uma sala de leitura no terminal rodoviário de uma bairro rural. Mais de 30.000 livros colocados em circulação. Realizamos mais de 40 “Manhãs de Histórias com Piquenique Comunitário” no parque público da cidade, 3 Festivais Literários com mais de 250 autores inscritos e 1 formação de adolescentes como mediadores de leitura. Em Piracaia hoje, além da biblioteca do centro ter sido reaberta, o município inaugurou um Clube de Leitura no parque público, ou seja, mais uma biblioteca e dessa vez direcionada a crianças e adolescentes, com livros, mobiliário e ambiente convidativos, atualizados e bonitos. Também aprovamos uma lei que institui a Semana do Livro e da Leitura na cidade, mobilizando todas as escolas para atividades com leitura durante o ano, com apresentações durante esse semana. E, em 2019, passamos a organizar as bibliotecas de todas as escolas municipais da cidade, com o Projeto Rede de Bibliotecas Escolares de Piracaia.    

Por que resolveu se inscrever no Prêmio IPL?

O trabalho com a formação de leitores nem sempre é reconhecido, valorizado, muitas vezes agimos sozinhos, silenciosa e voluntariamente. O Prêmio IPL dá visibilidade nacional às ações na área do livro, da leitura e da formação de leitores, nos coloca em rede com outros projetos e iniciativas do Brasil e, portanto, é nosso grande parceiro. 

Como foi vencer o Prêmio? 

Foi uma alegria enorme. Temos orgulho do que fazemos e ouvimos que  o “agir localmente” é importante, mas sabíamos que nosso projeto era pequeno, mobilizava a questão da leitura em uma cidade de 27.000 habitantes, no interior de São Paulo. Ver o nome de nossa cidade, de nosso projeto ali, em um prêmio nacional, junto com tantas iniciativas importantes e valiosas em nosso país, foi muito emocionante. 

Quais impactos a premiação trouxe para o seu projeto?

O Prêmio é um estímulo para quem se dedica à causa da leitura e, especificamente, ao Projeto Piracaia na Leitura, pois vemos que estamos no caminho certo, que estamos sendo ouvidos, vistos, que temos interlocutores, parceiros, que não estamos sozinhos. 

Sem dúvida, o Prêmio IPL, além de fortalecer a equipe e a continuidade do Piracaia na Leitura, mobilizou nossos gestores locais a investirem na área da leitura também, criando mais uma biblioteca na cidade, investindo nas bibliotecas escolares, em ações pró-leitura. 

Quais são os planos futuros e como o IPL pode colaborar com eles?

O prêmio é um dispositivo importantíssimo para que as ações de formação de leitores continuem ocorrendo no Brasil, pois além de “destacar” projetos, iniciativas, resultados, também fortalece essa rede e oferece referências, parâmetros, objetivos que podem inspirar novas iniciativas.  Um destaque para gestores públicos que desenvolvam ações pró-leitura também pode ser importante, pois muitas das ações na área serão fortalecidas se tivermos gestores comprometidos com a causa.  

Se você pudesse pedir a um gênio da lâmpada 3 coisas para seu projeto, o que pediria e por que?

O Piracaia na Leitura vive de trabalho voluntário e de apoio eventual, por meio de editais. Consideramos que o Projeto já possui tempo de existência, resultados alcançados e objetivos pela frente que exigem que se profissionalize e se expanda. Ao gênio, pediríamos: 

1) parceiros que nos apoiem para que possamos nos dedicar mais às ações do Piracaia na Leitura na cidade e na região (já temos demanda, mas não damos conta),  

2) políticas públicas que fortaleçam iniciativas como as nossas, que surgem de demandas concretas, apresentam soluções criativas e envolvem atores locais; 

3) que desperte mais pessoas e municípios para a importância de se investir em leitura para que possamos colaborar com outros (novos) leitores também! 



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