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Leitura em Aulas de História (Tiese Júnior)

30/05/2017

Leitura em Aulas de História (Tiese Júnior)

Tiese Júnior

Minhas turmas de ensino médio, do colégio Público Anunciada Chaves apresentam sérias dificuldades com leitura e escrita na disciplina de História. Creio que nada diferente do resto do Brasil. Por isso, decidi realizar uma ação de leitura e de escrita mais intensa, dentre elas a leitura de um livro escrito por um historiador.

Após alguns percalços para definir qual livro, cheguei à obra A descoberta do Novo Mundo, uma obra de ficção da historiadora Mary Del Priore, publicada pela editora Planeta, 2013.  É chato reconhecer, mas o critério principal de escolha do livro foi o número de páginas, pois, o tempo é curto.

Quem faz História na sala de aula vive sob a pressão de “tempos e conteúdos programáticos”, que por vezes, absurdamente, são considerados os “sujeitos do processo de ensino” isso é angustiante.  Outro elemento importante foi a linguagem da obra. Era preciso aproximar os jovens da História. No livro em tela, os heróis são adolescentes, assim como a maioria dos meus atuais alunos e alunas.

Meu objetivo era que os alunos fizessem uma leitura que pudesse ajudar em seu processo de alfabetização e letramento, em conteúdos de História, mas principalmente aproximá-los da disciplina Língua Portuguesa. Que pudessem olhá-la com um pouco mais de atenção, cuidado, pois os vejo escrevendo “de qualquer forma”, por vezes, fazendo rabiscos que nem mesmo eles conseguem, em nossas sessões de leitura. Isso me angustia.

Mas, voltando este livro, a autora fala de História do Brasil e trabalha conceitos que são importantes no processo de constituição da história do país. Na caminhada, foi estipulado o prazo de 30 dias para a leitura do livro e a escrita de um texto com as impressões sobre a obra. Solicitei que o texto fosse escrito à mão. Uma espécie de ação de resistência, de minha parte, já que alguns alunos apresentam grafias impossíveis de serem lidas, sei que apenas um exercício dessa natureza, não vai resolver o problema, mas é uma oportunidade de reflexão sobre a questão. Nessa etapa, ainda me perguntava se eles iriam fazer a atividade, já que existe uma resistência grande em fazer esse tipo de trabalho – pelo menos é o que ouço dos meus colegas professores.

Nas quatro semanas correntes, sempre que possível, conversávamos sobre como estava o andamento da leitura. Ouvi reclamações que iam do tamanho do livro, 100 páginas, muito grande segundo alguns, à linguagem, que era complicada. Diziam:

Tem que ler com um dicionário do lado!

E eu:

É isso mesmo.

No meio dos desanimados, sempre alguém dizia que estava gostando, e que não havia dificuldades. Aliviado, eu pensava: “Que bom!”.

Terminado o prazo, chegou a hora das turmas apresentarem o trabalho escrito. Veio a primeira boa surpresa: todos fizeram e no formato solicitado. No processo, decidi abrir um espaço para comentários orais, para aqueles que quisessem, achei por bem não “forçar a barra”.

Gostaria de ouvir relatos sobre a experiência com a leitura do livro, propus.

Antes, me preparei para ouvir críticas sobre atividade, pois, creio que é importante deixa-los à vontade para gostar, ou para não gostar. Como costumo dizer é preciso respeitar o diferente, e este pode vir expresso em um sonoro NÃO! E em alguns casos, foi o que eu ouvi.

Não gostei professor! Chato demais! A linguagem é difícil professor!

Eu dizia:

Me dê exemplos.

E os argumentos começavam. Descobri a ação como um espaço para o aprendizado da argumentação. Foi um aprendizado pra mim. Eles abriam o livro e mostravam a parte “chata”, ”difícil”. Eu aprendia a respeitar os seus NÃOS. Em 4 turmas, com um total de aproximadamente 140 alunos, eu ouvi isso, em duas turmas, de seis alunas. Ouvi seus nãos. Feliz. Pois elas me mostraram que leram o livro. Esse era meu objetivo. Foi a segunda boa surpresa.

Os outros alunos e alunas que foram contar as aventuras de Pedro (o herói da narrativa) Paulo e Izabel foram só elogios para o livro e para sua autora Mary Del Priore. Uns queriam saber sobre a vida da escritora, e houve até quem mostrasse o desejo em estudar História no futuro. Por vezes, havia uma “disputa” maravilhosa, para saber quem falava mais sobre o livro. Alunos que no geral são calados nas aulas pediram a palavra e deram um “show” expondo os pontos interessantes e até, falhas na narrativa (risos). Diziam:

Se fosse eu, faria assim!

Eu olhava a cena com surpresa. Não imaginei que resultado fosse tão bom!

Mas, terminada essa etapa, os trabalhos foram recolhidos e passei à fase de leitura dos mesmos. A satisfação final foi identificar uma sensível melhoria na qualidade dos textos escritos e no trato dado à língua portuguesa.

No geral, os textos fazem um relato dos principais aspectos da obra. Uma espécie de resumo. Alguns, porém, foram além e realizaram reflexões além do esperado.  Essa foi a minha maior surpresa.

Sobre o livro, diz o aluno Saulo Castro:

Li em pouco tempo. O livro fala de aventura e principalmente de História do Brasil, que considero muito importante, o problema foi na hora de escrever sobre o que foi lido é muita coisa interessante. Gostei também de aprender novas palavras que eu não conhecia o significado. (Aluno do 1º ano, CEAC)

A aluna Graziele Corrêa, assim fechou seu texto:

Assim, considero a leitura importante, para aprender História e Língua Portuguesa, uma vez que nessa experiência, era preciso observar a História do Brasil e também, a escrita e a capacidade de comunicação da autora com o público. (Aluna do 1º ano, CEAC)

O que aprendi com essa experiência? Preciso aumentar meu acervo de livros no gênero romances históricos, já que eles representam um recurso importante na sala de aula. As possibilidades de expressão escrita e oral foram positivas, mas eu preciso melhorar na condução dessa “cena”, como provocá-los a falar. Este ainda é um desafio.

Também, foi importante ouvir o “NÃO” de minhas alunas. Alguns alunos e alunas, poucos felizmente, copiaram resenhas da internet sobre o livro, o que logo foi transformado em uma oportunidade para falarmos do aspecto negativo ( mas comum), da prática do plágio e isso, considero que foi um aprendizado inesperado para mim.

Acredito que, se houver um projeto detalhado, a partir de uma boa sequência didática, a possibilidade do sucesso será muito grande.

Considero que essa ação foi um sucesso!

 



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